quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Depois de duas travessias de mochila pelos Andes da Argentina, Chile, Bolívia e Peru surgiu este diário de viagem com fotos artísticas. 

As imagens já não são mais o que eu vi; são fragmentos, cortes, texturas de algo que gostei e que me fez parar a viagem por uns minutos. 

As imagens são propositalmente grandes para que você observe detalhes de cor, textura, traços fortes, esfumaçados suaves, sombras, cores quentes e suaves, brilhos diferentes e tenha que interagir as vezes subindo e descendo ou movimentando para os lados as imagens no monitor.

Além disso, durante a preparação das imagens eu li muitos poemas de Pablo Neruda, que também foi um viajante em seu exílio político. Como as fotos são recortes e texturas da realidade os poemas abaixo das fotos também não estão por inteiro; apenas fragmentos. Foi inevitável associar os textos com as imagens, mas alguns poemas estão aqui apenas porque sempre gostei deles. Leia com calma...

Assim, este diário de viagem não é uma narrativa linear sobre locais e pessoas mas um conjunto de sensações entrelaçando o que vi e li; as texturas de Neruda.






Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.

De repente a madeira
me trouxe o teu contacto,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.




À beira do mar, 
no outono, 
teu riso deve erguer sua cascata de espuma, 
e na primavera, amor, quero teu riso 
como a flor que esperava,...








Espero que teus olhos sigam ouvindo o vento,
que sintas o perfume do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos. 




se amo os teus pés é só porque
andaram sobre a terra e 
sobre o vento e sobre a água, 
até me encontrarem.




Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz ilumine,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,...




É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,...




Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.









Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.




cortando o meio dia 
com uma flor azul,
















O homem gostaria de ser peixe ou pássaro,
Mas o gato quer ser somente gato,
e todo gato é um puro gato








Ouvir a noite imensa,
mais imensa sem ela




Sempre, sempre te afastas pela tarde
até onde o crepúsculo corre apagando estátuas...








Nós perdemos também este crepúsculo.
Ninguém nos viu à tarde com as mãos unidas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo..




















Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem tantas vezes enquanto vivem,
são eternos como é a natureza.












Fui teu, foste minha.
Tu serás daquele que te ame




Menina morena e ágil,
o sol que faz as frutas,
o que madura os trigos,
o que retorce as algas,
faz teu corpo alegre,
teus luminosos olhos e tua boca
que tem o sorriso da água.








teu amor vive escuro
em meu corpo
o apertado aroma




Mas para onde vá levarei o teu olhar
























Só existe o teu olhar para tanto vazio,
só a tua claridade para não seguir sendo, 
somente o teu amor para encerrar a sombra.








Juntos fizemos uma curva
na rota por onde o amor passou




A larga boca de fruta......












uma folha da árvore do nosso amor,
uma folha que há-de cair
sobre a terra como se a tivessem
produzido os nosso lábios,
como um beijo caído




...quando abro os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar, a luz,
a primavera, mas nunca o teu riso,
porque então morreria.




tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe: aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos
que navegam em direção às ilhas tuas
que esperam por mim...








E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...